El Niño muito forte deve manter Goiás mais quente que o normal até dezembro; chuvas voltam, mas de forma irregular
Boletim do CEMPA-Cerrado indica retorno gradual da instabilidade, com maior chance de chuva no sudoeste goiano em outubro, calor persistente em todo o estado e tendência de chuva abaixo da média no trimestre outubro-novembro-dezembro
O Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado) divulgou, em 30 de setembro, o novo Boletim de Previsão Subsazonal e Sazonal para o estado de Goiás. O documento cobre outubro de 2026 em detalhe e projeta o trimestre outubro-novembro-dezembro (OND). O recado central é que o fim da estação seca chega com as chuvas de volta, mas distribuídas de forma desigual, e com temperaturas acima da média sob influência de um El Niño de intensidade muito forte.
O motor por trás do clima: um El Niño de magnitude histórica

O El Niño acontece quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. Esse excesso de calor funciona como um motor térmico: altera ventos e a circulação da atmosfera em escala global, e isso muda onde e como chove (ou deixa de chover) em outras regiões do planeta, inclusive no Cerrado.
Segundo o boletim, o fenômeno se fortaleceu nas últimas semanas. Em meados de setembro, o índice Niño 3.4, principal termômetro do evento, chegou a cerca de +3,0 °C acima da média, acompanhado de aumento do calor armazenado abaixo da superfície do oceano. As projeções indicam mais de 90% de probabilidade de que o El Niño atinja intensidade muito forte durante a primavera e o verão 2026/2027 e, para o trimestre OND, 75% de chance de alcançar magnitude histórica (Índice Oceânico do Niño Relativo — RONI — trimestral igual ou superior a +2,5 °C).
Para Goiás, a influência tende a aparecer de forma mais clara nas temperaturas. Nas chuvas, o efeito é mais variável, no espaço e no tempo, e depende também de outros sistemas atmosféricos.
Outubro: instabilidade de volta, calor que não dá trégua

1 a 15 de outubro
Os modelos indicam aumento da instabilidade sobre o sudoeste do estado e a Região Metropolitana de Goiânia (RMG), possivelmente reforçado pela Oscilação Madden-Julian (OMJ), um pulso de nuvens e chuva que viaja pelos trópicos. No sudoeste goiano, a probabilidade de chuva acima da média fica entre 50% e 60%, com destaque para Rio Verde, Jataí e Santa Helena de Goiás. Entre os dias 7 e 13, porém, a tendência é de pausa temporária. Na RMG, as chuvas serão ocasionais e irregulares: pode chover forte em um bairro e fazer sol no vizinho.
Em Goiânia, os primeiros dias do mês devem ter tempo instável, com máximas entre 39 °C e 42 °C e mínimas entre 18 °C e 20 °C. Em algumas localidades, os termômetros podem se aproximar de 42 °C nas horas de menos nuvens. A média histórica de chuvas em Goiânia para a quinzena é de 57,3 mm.
16 a 31 de outubro
Entre os dias 16 e 22, a instabilidade diminui em grande parte do estado, com menos chuva e ar mais seco. A partir do dia 23, as condições voltam a favorecer pancadas, de novo com maiores volumes no sudoeste, com a OMJ na fase 1 ajudando a formar áreas de instabilidade. Na RMG, a chuva segue irregular e mal distribuída. As máximas continuam frequentemente acima de 39 °C, sobretudo à tarde. A média histórica de precipitação para o período em Goiânia é de 86,7 mm.
Novembro e dezembro: sinal de calor mais firme que o de chuva
Para novembro, a previsão de conjunto multimodelo não mostra um sinal consistente para a chuva, mesmo com a transição para a estação chuvosa. Já para a temperatura, há alta probabilidade de valores acima da média em praticamente todo o território goiano, chegando a 80%–90% em algumas áreas.
Em dezembro, quando a estação chuvosa já está climatologicamente estabelecida, a maior probabilidade é de chuva abaixo da média em grande parte do estado, com sinal mais evidente no centro e no norte, estendendo-se ao oeste e ao sudoeste. Isso não significa ausência de chuva: indica que podem ocorrer períodos mais secos entre episódios de instabilidade. A probabilidade de temperaturas acima da média chega a 80%–95% em algumas áreas.
O que esperar de outubro a dezembro

No conjunto do trimestre, as projeções apontam predomínio de condições favoráveis a chuva abaixo da média em boa parte de Goiás, com variações dentro do estado, e alta probabilidade de temperaturas acima da média em praticamente todo o território. Na prática, o cenário combina:
- Água: chuvas irregulares, com episódios intercalados por períodos mais secos;
- Temperatura: calor persistente e maior chance de ondas de calor;
- Solo: secagem rápida da superfície, pela alta evaporação em tardes muito quentes.
O boletim ressalta que os impactos do El Niño sobre a chuva em Goiás não são uniformes nem garantidos, e que as previsões são probabilísticas: indicam tendências, não certezas.
Sobre o boletim
O Boletim de Previsão Subsazonal e Sazonal é produzido pelo CEMPA-Cerrado, parceria entre a Universidade Federal de Goiás (UFG), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Goiás (SECTI-GO). As projeções de novembro, dezembro e do trimestre usam saídas de modelos globais de previsão reunidas pelo Centro Líder da OMM para previsões de longo prazo (wmolc.org). O documento completo, com mapas e infográficos, está disponível no Portal CEMPA.
Categorias: previsão meteorológica Previsão sazonal previsão subsazonal
