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CEMPA-Cerrado alerta para formação de El Niño forte em 2026 e riscos climáticos para Goiás

Análise do Sistema Integrado de Informações Agrometeorológicas do Sudoeste Goiano (SIAG CEAGRE-CEMPA) aponta alta probabilidade de El Niño forte a partir do inverno de 2026, com impactos significativos na distribuição das chuvas e na safra 2026/27 no Centro-Oeste.

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O Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado), da Universidade Federal de Goiás (UFG), divulgou análise técnica do Sistema Integrado de Informações Agrometeorológicas do Sudoeste de Goiás (SIAG CEAGRE-CEMPA) indicando a formação de um evento de El Niño com intensidade forte ao longo de 2026. Os dados mostram que, a partir do inverno no Hemisfério Sul, as probabilidades de ocorrência do fenômeno superam 80% e devem se manter elevadas durante toda a estação chuvosa, período crítico para a agricultura regional.


O que é o El Niño e por que acompanhá-lo?


O El Niño é a fase positiva do sistema ENOS (El Niño–Oscilação Sul), fenômeno climático de escala global associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico na região da Linha do Equador. Quando esse aquecimento ocorre, ele altera a circulação atmosférica em grande escala e produz efeitos conhecidos como teleconexões: mudanças no regime de chuvas, temperatura e extremos meteorológicos em regiões distantes do Pacífico, incluindo o Brasil Central.

Para o Centro-Oeste e, em especial, para o sul, sudoeste e oeste de Goiás, eventos de El Niño estão historicamente associados a atraso no início das chuvas, maior frequência de veranicos, recentemente  maios frequência de ondas de calor e distribuição irregular da precipitação ao longo da estação chuvosa. Por isso, seu monitoramento antecipado é essencial para o planejamento agrícola.

Sinais consistentes de aquecimento no Pacífico


A análise integra dados dos dois principais centros internacionais de previsão do ENOS: o Centro de Previsão Climática da NOAA (CPC) e o Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade da Universidade de Columbia (IRI). Ambos registram padrão semelhante: no trimestre de abril, maio e junho, as probabilidades de El Niño já saltam de cerca de 20% para mais de 60%, e a partir do inverno ultrapassam 80 a 90%, com valores igualmente elevados mantidos até o início do verão.

Complementando esse quadro, dados semanais de temperatura da superfície do mar (TSM) registram aquecimento contínuo e organizado ao longo do equador na região Niño 3.4, o principal termômetro do ENOS. O padrão zonal das anomalias positivas observado entre meados de março e meados de abril de 2026 indica acoplamento progressivo entre oceano e atmosfera, mecanismo característico dos eventos mais intensos, como os de 1997/98 e 2015/16.

Intensidade: o CEMPA-Cerrado projeta El Niño forte


As rodadas de modelos de abril de 2026 mostram aumento nas anomalias projetadas de TSM em relação às rodadas de março, com a média dos modelos indicando valores superiores a +2,5°C na região Niño 3.4, e alguns modelos chegando a +3,5°C. A tendência de aquecimento progressivo entre rodadas consecutivas é um sinal clássico de fortalecimento do acoplamento oceano-atmosfera.

A previsão do CEMPA-Cerrado adota posição mais conservadora: a intensidade esperada é de El Niño forte, com anomalias do índice RONI (Relative Oceanic Niño Index) entre 1,5°C e 2,0°C. O RONI é um indicador mais refinado do que o índice ONI tradicional, pois desconta o efeito do aquecimento global de longo prazo e avalia o aquecimento do Pacífico em relação ao restante dos oceanos tropicais, permitindo separar o sinal natural do ENOS da tendência climática de fundo.

Vale ressaltar que eventos mais intensos não produzem automaticamente impactos maiores. O que a maior intensidade indica é que determinados efeitos adversos se tornam mais prováveis, embora não certos.

Inverno, primavera e verão: o que esperar em Goiás


A análise detalha o comportamento esperado para cada estação. Durante o inverno (junho a agosto), o efeito direto do El Niño é mais limitado, mas já tende a reduzir a frequência de frentes frias, elevar as temperaturas acima da média e agravar o déficit hídrico do solo antes do plantio. A equipe chama atenção para um risco específico: em eventos anteriores, o SIAG identificou episódios de precipitação intensa e anômala no final do período seco, que geraram falsa expectativa sobre o adiantamento das chuvas. Os produtores devem aguardar as atualizações do sistema antes de antecipar o plantio.

Na primavera (setembro a novembro), período decisivo para o estabelecimento das lavouras de verão, o El Niño tende a atrasar ou tornar irregular o início da estação chuvosa, impactando diretamente o calendário agrícola da soja e do milho. A análise aponta também aumento na frequência de veranicos, com períodos de 7 a 15 dias sem chuva, e alta probabilidade de ocorrência de ondas de calor entre agosto e dezembro de 2026. No El Niño de 2023–2024, a região monitorada pelo SIAG registrou quatro ondas de calor entre setembro e dezembro.

No verão (dezembro a fevereiro), mesmo que o total acumulado de chuva se aproxime da média histórica, a distribuição tende a ser irregular: eventos intensos concentrados em poucos dias alternam com períodos secos prolongados, elevando os riscos de estresse hídrico, erosão e incidência de doenças fúngicas em cultivos. As temperaturas mais altas associadas ao El Niño também intensificam a evapotranspiração, aumentando a demanda hídrica das plantas, aspecto especialmente crítico em solos com menor capacidade de retenção de água.

Alto risco meteorológico para a safra 2026/27


O conjunto das evidências aponta para um cenário de alto risco meteorológico para a safra 2026/27 no Centro-Oeste, caso o El Niño se confirme com intensidade moderada a forte. O SIAG CEAGRE-CEMPA reforça a recomendação de acompanhamento contínuo das previsões meteorológicas operacionais e sugere o uso de cultivares mais resistentes à seca nas regiões do sudoeste, sul e oeste goiano.

O monitoramento integrado realizado pelo SIAG, combinando índices climáticos, modelos dinâmicos e dados observacionais, continuará sendo atualizado ao longo dos próximos meses para apoiar produtores rurais, gestores públicos e demais tomadores de decisão no planejamento frente ao cenário que se avizinha.

Para acompanhar as informações publicadas pelo SIAG acessar o grupo de whatsapp do sistema fazendo a leitura  do seguinte QR: 

 

Qr_grupo_SIAG

 

 

Categorias: meteorologia agrometeorologia El Niño