Supercélula atinge a Região Metropolitana de Goiânia e deixa até 70,8 mm de chuva em uma única noite
Tempestade convectiva intensa, associada a um cavado atmosférico, provocou chuvas fortes e irregulares na noite de quinta-feira (22); imagens do satélite GOES-19 mostram como o sistema se formou e evoluiu
Na noite de quinta-feira (22 de outubro), a Região Metropolitana de Goiânia (RMG) foi atingida por uma tempestade convectiva intensa, identificada pela equipe do CEMPA como uma supercélula. Entre aproximadamente 19h e 23h30, o sistema provocou chuvas fortes e distribuídas de forma muito desigual pelo território: enquanto alguns bairros acumularam mais de 60 mm, outros receberam menos de 20 mm.

Onde mais choveu
Os maiores acumulados de precipitação em 24 horas foram registrados na região oeste, no Jardim Planalto (70,8 mm), na porção sudoeste, no Jardim Madri (68,4 mm), e na região leste (64,6 mm). A chuva foi expressiva em grande parte da área urbana: 11 dos 23 pontos analisados tiveram acumulados entre 42 e 57 mm, em diversas regiões da cidade. No total, 18 pontos superaram 30 mm. A irregularidade espacial é uma das marcas desse tipo de tempestade. No outro extremo do gráfico, o Jardim Santo Antônio, na região sul, registrou apenas 0,2 mm, e o Parque Aeronáutico, no noroeste, ficou em 14,8 mm. A diferença entre o ponto mais chuvoso e o mais seco passou de 70 mm.
O que o satélite mostrou
A evolução da tempestade foi acompanhada pelo satélite GOES-19, no canal 13 (infravermelho, 10,3 µm), entre as 19h e a meia-noite do horário de Brasília. Esse canal mede a temperatura do topo das nuvens. Quanto mais frio o topo (tons de amarelo, laranja e vermelho na escala das imagens), mais alto ele chegou na atmosfera e, em geral, mais intensa é a convecção, isto é, a subida vigorosa do ar quente e úmido que forma as nuvens de tempestade.
A sequência de imagens permite acompanhar o processo:
1) Por volta das 19h: núcleos de topos muito frios aparecem ao sul da RMG:

2) Até cerca das 21h: o sistema se expande e passa a cobrir grande parte da região metropolitana:
3) Entre aproximadamente 21h40 e 22h10: os topos mais frios, com temperaturas próximas de 200 K (cerca de −73 °C), se concentram sobre a RMG, o período de maior intensidade observado nas imagens:

4) A partir das 23h: o sistema perde força gradualmente, enquanto novas células se desenvolvem a oeste:

O papel do cavado atmosférico
O episódio ocorreu sob influência de um cavado atmosférico, uma região alongada de baixa pressão. Ele favorece a convergência dos ventos, ou seja, o encontro de correntes de ar em baixos níveis, e os movimentos ascendentes. Com o ar sendo forçado a subir continuamente, as condições de instabilidade se mantêm por mais tempo, o que ajuda a sustentar tempestades intensas.
Como uma supercélula se forma?
A supercélula é um tipo especial de tempestade, caracterizada por uma corrente ascendente em rotação, chamada mesociclone. É essa rotação que permite à tempestade se organizar, durar mais e ganhar intensidade. Para que ela se forme, três ingredientes precisam estar presentes ao mesmo tempo:
- Instabilidade atmosférica: ar quente e úmido próximo à superfície, que favorece correntes ascendentes intensas;
- Cisalhamento do vento: mudanças na velocidade e/ou na direção dos ventos com a altitude, capazes de favorecer o desenvolvimento de correntes ascendentes em rotação;
- Mecanismo de levantamento: aquecimento da superfície, frentes frias, convergência de fluxo de umidade ou outros processos capazes de iniciar a convecção.
Monitoramento
O acompanhamento de eventos como este, a partir de imagens de satélite e de dados de precipitação, ajuda a compreender como as tempestades se formam e se deslocam sobre o Cerrado goiano. Os produtos e boletins do CEMPA estão disponíveis em www.cempa.ufg.br.
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